Autoridade no vinho e responsabilidade cultural: uma reflexão sobre o papel das figuras influentes no vinho

24/02/2026

Por Pier Giulio Alessandro Bendinelli

No mundo do vinho, a autoridade é um capital simbólico muito poderoso. Não se trata especificamente apenas de competência técnica ou de um percurso profissional prestigiado (ou reconhecido como tal); trata-se de credibilidade percebida, de influência concreta nas escolhas de compra, da capacidade de orientar o gosto coletivo.

Quando uma figura reconhecida – por títulos, experiência ou visibilidade mediática – expressa um julgamento público sobre um vinho, esse julgamento nunca é neutro. Influencia a forma como os consumidores interpretam o próprio conceito de qualidade. Contribui para definir o que é um “vinho sério”, o que é um “vinho correto”, o que merece ser comprado numa loja de vinhos online ou incluído numa carta de vinhos.

Por esta razão, o tema dos patrocínios no vinho não pode ser tratado como uma simples dinâmica de mercado e, sobretudo – também legalmente – não pode passar como simples conselho, uma sugestão ligada não a gostos reais, mas a pagamentos/doações mais ou menos diretas.

Aqui está o ponto decisivo.

Um conselho pressupõe autonomia de julgamento.

Uma promoção pressupõe uma relação económica.

As duas coisas podem coexistir, mas devem ser claramente distinguíveis. Quando uma recomendação é percebida pelo público como expressão livre de gosto e competência, mas nasce na realidade de um acordo comercial, já não estamos perante uma opinião técnica: estamos perante uma comunicação promocional.

E a comunicação promocional é legítima, desde que seja reconhecível como tal.

O problema não é a existência da compensação. O problema é a ambiguidade.


A fronteira entre promoção legítima e legitimação cultural

É evidente que o vinho é também indústria, e que a promoção faz parte do sistema económico. As colaborações comerciais não são, por si só, discutíveis. O problema surge quando a fronteira entre promoção e legitimação cultural se torna opaca.

Se uma figura percebida como referência qualitativa apoia publicamente produtos concebidos principalmente para serem competitivos numa faixa de preço – vinhos corretos, talvez agradáveis, mas sem verdadeira profundidade ou complexidade expressiva – a mensagem implícita que chega ao consumidor é muito forte: este é o nível que merece atenção e este vinho pode ser comparado entre os grandes.

Não é uma questão de custo. A questão diz respeito à coerência entre o padrão que se representa e o padrão que se legitima.

Quando o limiar qualitativo é baixado por necessidades promocionais, o efeito não é episódico. É sistémico.

 

Como escolher um vinho de qualidade num contexto mediático confuso

Muitos consumidores hoje procuram online indicações sobre como escolher um vinho de qualidade, quais vinhos comprar online, qual seleção de vinhos é realmente fiável. Na ausência de ferramentas técnicas, confiam em quem parece mais competente.

Se essa competência é posta ao serviço de lógicas puramente comerciais, o consumidor deixa de dispor de um critério claro para distinguir entre vinho construído para o mercado e vinho construído para expressar uma identidade.

O resultado é um progressivo achatamento do gosto.

Cria-se um círculo em que a comunicação justifica o produto, e o produto justifica a comunicação, mas o nível cultural não cresce. Pelo contrário, tende a estabilizar-se num padrão médio que nunca põe nada em causa.

 

Responsabilidade cultural e seleção de vinhos

No vinho, a seleção não é um ato neutro. É um gesto curatorial. Significa assumir a responsabilidade de propor algo como merecedor de atenção.

Quando quem possui um capital de autoridade utiliza essa posição para apoiar vinhos que não representam realmente um padrão elevado, contribui – consciente ou inconscientemente – para redefinir para baixo o próprio conceito de qualidade.

A cultura do vinho não se constrói apenas com as grandes garrafas icónicas. Constrói-se com coerência diária. Com a capacidade de manter uma linha clara entre o que é simplesmente vendável e o que é realmente válido.


A minha posição: coerência entre seleção e convicção

Para a STELT, a seleção de vinhos não é um instrumento de saturação comercial. É um processo de filtro. Cada garrafa inserida no catálogo deve possuir identidade, precisão, coerência expressiva.

Não se trata de elitismo. Trata-se de alinhamento.

Se um vinho não ultrapassa o teste da convicção pessoal, não é incluído. Esta abordagem reduz o volume, mas preserva a credibilidade.

A longo prazo, a credibilidade vale mais do que qualquer patrocínio.


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