Autoridade no vinho e responsabilidade cultural: uma reflexão sobre o papel das figuras influentes no vinho
Por Pier Giulio Alessandro Bendinelli
No mundo do vinho, a autoridade é um capital simbólico poderosíssimo. Não se trata especificamente apenas de competência técnica ou de um percurso profissional prestigiado (ou assim reconhecido); trata-se de credibilidade percebida, de influência concreta nas decisões de compra, da capacidade de orientar o gosto colectivo.
Quando uma figura reconhecida – pelos títulos, experiência ou visibilidade mediática – expressa publicamente uma opinião sobre um vinho, essa opinião nunca é neutra. Influencia a forma como os consumidores interpretam o próprio conceito de qualidade. Contribui para definir o que é um “vinho sério”, o que é um “vinho correcto”, o que merece ser comprado numa loja de vinhos online ou incluído numa carta de vinhos.
Por este motivo, o tema dos patrocínios no vinho não pode ser reduzido a uma simples dinâmica de mercado e, sobretudo – também legalmente –, não pode passar por um simples conselho, uma sugestão associada não a gostos reais, mas a pagamentos/ofertas mais ou menos directos.
É aqui que reside o ponto decisivo.
Um conselho pressupõe autonomia de julgamento.
Uma promoção pressupõe uma relação económica.
As duas coisas podem coexistir, mas devem ser claramente distinguíveis. Quando uma recomendação é percepcionada pelo público como expressão livre de gosto e competência, mas nasce, na realidade, de um acordo comercial, já não estamos perante uma opinião técnica: estamos perante uma comunicação promocional.
E a comunicação promocional é legítima, desde que seja reconhecível como tal.
O problema não é a existência de uma remuneração. O problema é a ambiguidade.
A fronteira entre promoção legítima e legitimação cultural
É evidente que o vinho também é indústria e que a promoção faz parte do sistema económico. As colaborações comerciais não são, por si só, discutíveis. O problema surge quando a fronteira entre promoção e legitimação cultural se torna opaca.
Se uma figura percepcionada como referência qualitativa apoia publicamente produtos concebidos principalmente para serem competitivos numa determinada faixa de preço – vinhos correctos, talvez agradáveis, mas sem verdadeira profundidade ou complexidade expressiva –, a mensagem implícita que chega ao consumidor é muito forte: este é o nível que merece atenção e este vinho pode ser comparado com os grandes.
Não é uma questão de custo. A questão diz respeito à coerência entre o padrão que se representa e o padrão que se legitima.
Quando o limiar qualitativo é reduzido por necessidades promocionais, o efeito não é episódico. É sistémico.
Como escolher um vinho de qualidade num contexto mediático confuso
Actualmente, muitos consumidores procuram online indicações sobre como escolher um vinho de qualidade, que vinhos comprar online e que selecção de vinhos é realmente fiável. Na ausência de ferramentas técnicas, confiam em quem parece mais competente.
Se essa competência for colocada ao serviço de lógicas puramente comerciais, o consumidor deixa de dispor de um critério claro para distinguir entre um vinho concebido para o mercado e um vinho concebido para expressar uma identidade.
O resultado é um progressivo nivelamento do gosto.
Cria-se um círculo em que a comunicação justifica o produto e o produto justifica a comunicação, mas o nível cultural não aumenta. Pelo contrário, tende a estabilizar-se num padrão médio que nunca põe nada em causa.
Responsabilidade cultural e selecção de vinhos
No vinho, a selecção não é um acto neutro. É um gesto de curadoria. Significa assumir a responsabilidade de propor algo como merecedor de atenção.
Quando quem possui um capital de autoridade utiliza essa posição para apoiar vinhos que não representam verdadeiramente um padrão elevado, contribui – consciente ou inconscientemente – para redefinir em baixa o próprio conceito de qualidade.
A cultura do vinho não se constrói apenas com as grandes garrafas icónicas. Constrói-se com coerência diária. Com a capacidade de manter uma linha clara entre aquilo que é simplesmente vendável e aquilo que é realmente válido.
A minha posição: coerência entre selecção e convicção
Para a STELT, a selecção de vinhos não é uma ferramenta de saturação comercial. É um processo de filtragem. Cada garrafa incluída no catálogo deve possuir identidade, precisão e coerência expressiva.
Não se trata de elitismo. Trata-se de alinhamento.
Se um vinho não passar o teste da convicção pessoal, não é incluído. Esta abordagem reduz o volume, mas preserva a credibilidade.
A longo prazo, a credibilidade vale mais do que qualquer patrocínio.
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